7 de janeiro


Kratochvil
Naíma, deixei os dois livros sobre o tapete
ao lado da mesinha de cabeceira.
Eu sempre alterno a leitura dos contos
de um e de outro livro.
E agora eles estão lá,
o Carver e o Shepard,
a Cidade e o Deserto, descansando.
E eu estendo a mão
procurando o interruptor do abajur
preso à parede sobre minha cabeça,
basta um toque e a noite se revelará inteira.
E com ela virá o desafio
que é o de seguir vivendo.
Meus cabelos embranqueceram.
Estou cansado.
Meus olhos ardem.
Não tenho planos para o futuro
a não ser escrever.
Já tive planos de continuar
a correr pelo Mundo,
mas neste momento nada disso importa,
porque é como se eu corresse
por dentro de mim mesmo sem parar.
Então eu penso em você.
E é só o que tenho feito
desde que nos despedimos.
E é sobre você que eu escrevo
sem nunca desenhar seu nome.
Mas você está lá, Naíma,
em todas as poesias, inteira.
E é seu nome que eu repito,
bem baixinho,
como numa oração,
todas as noites antes de dormir

11 de janeiro

Naíma, você tinha razão,
parece mesmo insistência.
Tenho procurado sua voz por aí.
Estou sempre procurando
partes de você nos lugares
mais improváveis do apartamento.
Pode ser aquele olhar
decididamente sincero
ou aquele outro, meio triste.
Não importa o quê,
desde que seja algo seu.
Estou à procura
de uma velha música,
aquela que ouvíamos
repetidas vezes.
Estou procurando uma nova palavra,
como a que você inventava num instante
e que durava
toda uma vida.

Estou procurando a mim mesmo
e aquele jeito sem graça que eu tinha
quando nos encontramos
pela primeira vez.
Amor, eu estou perdido outra vez.
Desta vez, creio que para sempre.

20 de janeiro


Ralph Eugene Meatyard

Quase esqueci que sei falar.
Quando volto a falar é num tom muito baixo,
quase imperceptível.
É uma voz estranha, meu amor,
que me assusta um pouco quando ouço.
E sinto uma falta de ar impossível,
apesar de tudo à minha volta
mostrar que é só insistir.

Sonhei com o deserto outra vez.
Ele estava lá, o oásis.
Mas muito distante,
como daquela última vez.
Ele parecia afastar-se mais e mais
na medida em que caminhávamos
em direção a ele.
A tenda de campanha já estava montada
na beira da trilha e
os cobertores estavam dobrados
sobre a vasilha com carvão quente.
Fez muito frio na madrugada,
nos protegemos, um ao outro abraçados.
Depois o céu ficou quieto e o vento também.

Quando acordei fui olhar através da janela.
Pensei novamente naquela música
que dançávamos.
Pensei em quantas vezes sonharia outra vez
com o deserto de nós dois.
Pensei no silêncio que se instalou por aqui.
Pensei tanto que precisei me afastar da janela.
Agora estou mais calmo,
sentado à frente da mesa da sala,
apertando minhas duas mãos entrelaçadas
até os nós dos dedos ficarem completamente brancos.

22 de janeiro

Naíma,
tentei ler Céline por toda a noite
sentado no canto da sala.
A velha poltrona
é como se fosse minha segunda pele.
Me percebi seguidas vezes
passeando com os olhos pela parede
e pude descobrir que o tempo
deixou marcas abstratas
acima da porta da entrada.
Quase ao amanhecer,
pensei ouvir um idioma desconhecido
que provavelmente vinha da varanda.
Era somente a voz da cidade.

Não existe dia difícil
para homens de verdade,
você dizia.
Consegui ir até o mercado.
Vi meu reflexo nas vitrines
enquanto voltava para casa.
A barba por fazer,
os cabelos encrespados
e a jaqueta azul de lã.
Então entendi meu desconforto,
mesmo no começo do dia
o calor já chegava aos 30 graus.

Entrei no apartamento
e o gato estava encarapitado
no aparador ao lado da porta,
naquele mesmo lugar
onde ele sempre esperava você chegar.
Ele olhou pra mim e saltou para o chão,
sobre a própria sombra,
e foi se aninhar na nossa cama,
naquele mesmo lugar
onde você ficava,
ouvindo alguma música,
tomando pequenos goles da taça de vinho,
esperando a minha hora de voltar.

28 de janeiro

Meu amor,
finalmente desisti da música e da leitura.
Elas me confundiam.
Passo a maior parte do tempo na sala.
Só me afasto dali pra viajar.
A velha poltrona é o ponto de partida
para minhas aventuras.

Ontem fui até a nossa pequena ilha,
nadando muito devagar,
como fazíamos antes.
Duas forças invisíveis,
mas muito conhecidas,
me impulsionavam suavemente
pelos flancos. Era irresistível.
Sentei na areia
antes de explorar novamente
os encantos do lugar.
Durou pouco o passeio.
Súbito, já voltara ao conforto
do meu cantinho no apartamento.

Depois de um breve cochilo,
consegui entender
que todas as coisas da vida
vêm aos pares.
O oásis e a ilha,
o deserto e o oceano,
a noite e o silêncio,
o dia e o silêncio.
O gato e o meu colo.
O meu olhar e o infinito,
que ocupa um pequeno ponto
da parede
no outro lado da sala.

3 de fevereiro


Van Shnooken Raggen

Naíma,
fico por horas mascando os dentes,
revirando a língua,
como se fosse um dromedário.
Deve ser o excesso de café.

O Bóris e a Judith vieram me visitar,
parecia que estavam assustados.
Pergutaram sobre você
e eu não soube responder.
Eu nunca sei o que dizer
quando me perguntam de você.
O Bóris tomou a última dose
de uma garrafa de conhaque,
depois lavou o copo.
A Judith começou uma arrumação
no apartamento.
Eles trouxeram mantimentos e bebida.
O Bóris ficou sentado à minha frente,
olhando pro gato,
evitando me encarar.
No finalzinho da tarde,
foi fazer mais café
e voltou com as canecas.
Ele ficou parado
na frente dos livros da estante
e falou algo sobre o Cortázar.
Eu fui olhar os vasos da varanda,
fiquei arrancando as folhas secas
e os talos mortos
com a caneca numa mão
e um cigarro apagado no meio da boca.
Estava cansado.
Tenho andado muito cansado
nos últimos dias.

Quando eles foram embora
eu me senti aliviado,
meu corpo estava inteiramente morno.
Fiquei em pé um pouquinho
olhando para os livros da estante.
Depois apaguei todas as luzes do apartamento
e voltei pro meu lugar na poltrona.

10 de fevereiro

Naíma, não há melhor lugar para viver
do que aqui na velha poltrona.
Posso ficar à disposição das intempéries
enquanto a vida escoa.
Tudo cobre o meu corpo através da vidraça.
Já não sinto falta de mim mesmo,
me sinto bem acompanhado, em silêncio.

As últimas chuvas trouxeram o mar
para mais perto,
se me debruçasse um pouco
sobre o parapeito da varanda
poderia tocar as águas.

Não abro mais as portas nem o vidro das janelas,
o ar da cidade tornou-se espesso demais
e se ele avançar apartamento a dentro
terei a impressão
que é impossível abrir os olhos.
Assim eu perderia o desfile
dos veleiros, das baleeiras e dos cargueiros.
Os barcos, todos eles, dia e noite,
seguem um cortejo moroso
diante da janela. Eles já não aportam.

O único sacolejar do apartamento
deveria ser o da mudança das marés
afligindo as paredes do prédio pelo lado de fora.
Mas não, por vezes um leve tremor distoa
aqui dentro,
deve ser apenas um pequeno vento,
como uma porta de armário batendo.

Vejo daqui também o oscilar das horas,
o tempo rastejando através do céu.
Algumas nuvens assobram as manhãs,
elas chegam amontoadas,
como um céu inventado novamente,
e escondem tudo num instante.
Cheguei a pensar que eram os pássaros
abandonando a cidade em bandos
que de tão coesos traziam em si a noite.
Mas, você sabe, os pássaros já não existem mais

15 de fevereiro


Robert Frank

Este já não é o mundo
em que aprendemos a viver, Naíma.
Há uma guerra lá fora.
De repente,
nosso gato rasteja para baixo da cama
como se estivesse num campo de batalha.
É o aviso de que eles estão a caminho.
Pouco depois começa o trovejar
dos helicópteros sobre a cidade.
Eles vasculham as moradias voando baixo.
Chegam com suas pás afiadas
roçando as vidraças.
Chegam com seus homens
pendurados do céu
com vestimentas de combate.
Chegam com seus feixes de laser.
Chegam rodopiando o ar,
gerando uma corrente artificial
que se intromete
nos cantos mais íntimos da nossa casa
e espia
os mais antigos segredos das nossas vidas.
É assim que a vela se apaga.
É assim que desaparece a claridade
e aquela carícia de luz que me acompanhava
enquanto escrevia pra você

19 de fevereiro

O mar recuou até seu antigo lugar
e deixou montanhas de lembranças
que adornam todas as ruas.
São apenas restos.
Um pedaço dele que ficou pra trás.
A cidade está quieta.

Então posso escrever esta carta de amor.
Mas não é para você, Naíma.
É uma carta de amor
para nossos amigos.
Nossas vidas sempre dependerão deles.
Gostaria de estar mais quieto
do que estou,
gostaria que não fosse necessário escrever
para explicar.
Houve uma época em que um olhar bastava.
Houve um tempo onde as canções
existiam por inteiro.
Você lembra, Naíma, do nosso jeito de cantar.
Éramos um coral,
exatamente como aqueles pássaros
que não mais sobrevoam o mundo.

A cidade está quieta.
Nem uma folha se move.

Nosso gato sonha em seu exato ninho.

Nossos amigos
estarão sempre perto de nós.

12 de fevereiro

Ninguém nada nunca
saberá explicar esta minha sensação.
É como se a cidade inteira
amanhecesse submersa.
É como se os dias fossem embora
e voltassem
no mesmo momento.
Não são sonhos,
é uma vertigem tão real
que chega a ser cruel
tentar descrevê-la.

Fiz um esforço incomum na última noite.
Voltei à nossa cama.
Toquei com hesitação o abandono dos lençóis,
apesar do gato insistir em acaricia-los
com as patinhas por quase todo o tempo.
Ficamos aninhados em seu ventre,
procurando reviver o impossível.
Uma espécie de paz me sufocou por horas,
em seguida senti algo parecido
a um comboio de desesperados homens
a caminho da guerra
passando por dentro de mim.
Paz e guerra existiam na mesma proporção.
Nuvens de sombras desenharam-se
no teto do nosso quarto feito um caleidoscópio
durante toda a madrugada.

Falo do tempo,
mas é como se ele não existisse, Naíma.
Só você consegue compreender
o que acontece aqui dentro.
Aqui neste nosso lugar

6 de março


Roy Decarava

Ainda sinto as dores percorrendo o corpo
como se fosse um arrepio corrosivo.
Elas foram causadas pelos solavancos
da minha mais recente viagem.

Atravessei a floresta
e avancei até o topo da montanha
movido pela saudade dos cães.
Estavam lá todos os oito,
caçadores e dóceis.
Saudosos também.
Eles não sufocam o contentamento,
muito menos disfarçam
o desejo de afago e de companhia.

Me sentia exausto na chegada.
O velho Máli estava mais escuro
do que da última vez.
Sua pele mais e mais se assemelha
ao couro de um búfalo.
Ele acendia a lenha do fogão
quando entrei na casa.
Tomamos café e fumamos
enquanto nos olhávamos,
como somente os velhíssimos amigos
têm coragem de fazer.
Não nos falamos,
você sabe, o velho Máli já não fala.

Choveu por 46 dias, Naíma.
A pequena ponte ainda balança acima do riozinho
que passa atrás da nossa cabana.
A várzea estava toda tomada pela enchente.

Quando voltei,
tive que transpor a floresta
de correspondência
que bloqueava a porta do apartamento.

O nosso gato parecia mais distante
e quieto do que de costume,
sequer me olhou no momento
em que atravessei a sala.
Pude perceber
que ele fez da velha poltrona
seu mais novo lugar de repouso.
Depois saltou para o tapete
e se enroscou entre minhas pernas,
até que sentei
e ele pôde acomodar-se
novamente em meu colo

22 de fevereiro

Há um abismo transparente entre nós.

Depois que as nuvens despencaram
sobre o tapete, deixaram no teto sinais
das mais brilhantes estrelas
de que posso lembrar.
Já não lembro, na verdade, tateio.
Há um suave esvoaçar das pálpebras.
Fecho e abro os olhos continuamente
desejando a nitidez outra vez.
O azul ainda penetra pela janela
capturando o ouro da manhãzinha.
Um carroceiro passa com seu grito.
Os cascos de um cavalo partem,
deixando um sonido amontoado.
O azul já é ouro.
Nada poderá impedir que o dia se complete.
Nem mesmo a guerra que atravessa a cidade.

Há um abismo entre nós, Naíma.
Algo que se aprofunda no centro do meu peito.
Além da pele.
Além dos ossos.
Além do coração.
Mas nada poderá ser comparado ao nosso amor.

28 de fevereiro


Raymond Depardon

O apartamento continua o mesmo
universo de sempre.
O mesmo lar
tão mudado,
tão distinto.
Nada deveria mudar o nosso mundo,
Naíma.

Hoje cedinho
comecei a encaixotar os livros.
Não suportaria mais conviver
com tantas estórias escapando
de cada um deles.
E a mistura de vozes
e as tipologias se entrelaçando.
Cada palavra
e cada frase tomando vida
e navegando no ar da sala,
ancorando nos cantos
de todas as dependências
como móbiles,
inúmeros, infinitos.

Primeiro separei os livros por gênero,
então por autores.
O chão da sala,
do quarto,
da cozinha
e da varanda
ficou tomado.
Depois de guardar todos os livros,
fechei as caixas
e etiquetei todas elas.

Aos poucos tudo voltou ao normal.
O silêncio
de prata
e o ar
completamente desimpedido.

Enquanto as palavras descansam,
Naíma,
é possível respirar.

10 de março

Agora é a neve batendo
na vidraça
que faz tremer meus tímpanos.
É um diminuto tambor
descompassado.
Ou será apenas um coração
insistindo?
Só sei que tudo
é de uma brancura imperdível,
que ofusca e ilumina.

Sim, os jornais estão certos:
a neve cobrirá todo o país.

Por um momento penso na cidade
como numa sepultura coberta de alvas
e delicadas flores.
Também imagino ser o meu corpo
que a cada dia afunda
mais e mais na poltrona.
Novamente o engano,
é o chão que num outro canto do mundo
desaparece dentro de si.

Todos os espelhos estão cobertos
desde que voltei da floresta.
Portanto, estou livre das aparências.
Meu verdadeiro trabalho
agora
é o de enxergar através da vidraça.
Evito mira-la diretamente.
Devo sempre lembrar, Naíma:
são os reflexos que guardam
uma multidão de fantasmas

17 de março

Naíma,
a tarde parecia avançar
em câmera lenta.
Vi os homens do mundo
atravessando a rua
como se fossem fantasmas
saídos das paredes do edifício
em frente ao nosso.
Tudo estava descolorido.
Não havia crianças
nem mulheres.
Apenas homens
com velhos trajes.
Debrucei sobre a murada
da varanda
tentando enxergar melhor.
Quando me viram,
formaram um ajuntamento
e começaram as imprecações
e as ameaças
e os punhos fechados
erguidos.

Voltei para dentro.
Precisava juntar as roupas.
Sou eu quem cuido delas agora.
Sem querer,
arranquei o tecido
que cobria o espelho do banheiro.
Não era mais eu quem estava ali.

As cores voltaram
com o cair da tarde.
Tudo ficou exasperadamente suave.
Lembrei de um solo de sax.
Senti mais uma vez
que somente os homens
que não existem mais
conseguem soprar luz.

11 de setembro


Santosh Kortiwada

Em que segundo da manhã
tudo começou?
Uma espiralada fumaça negra
subia, repetindo o que houve
em Santiago no ano de 1973.
Eu li, como se dormisse,
de um verso despregado do céu,
algo que cantava a vida eterna.

Os bombardeios começaram
pouco após o sol sair.
Através da vidraça
a vida fingia continuar.
As colunas negras,
como os meninos negros
da Nigéria empilhados,
saiam da terra e subiam.

Meu pai está morto, pensei.

Voltei pra cozinha,
a comida pronta.
Uma garrafa,
um copo, um prato,
dois talheres.
A mesa posta.
E a sua voz, Naíma,
corroendo meus ouvidos.

22 de maio

Nunca soube,
até aquele instante,
que o desejo de abraçá-la
pudesse reinventar
todos os sentidos.

Um homem com asas,
você disse - e desapareceu.

Não ficou um vestígio.
O outono abandonara
os trópicos e voava
para além do Equador.
Para cima e com força.

Uma aparição tão sublime
quanto a face do vento.
Árvore desfolhada.
Menos que um sonho.
Nada que possa ter nome.

Nada perdura, Naíma.

3 de março



De onde vêm as profecias?
Do homem que caminha na neblina
ou do condor que abandona
seu ninho de gelo e ataca o sol?
Não há como ir embora.
Não há como voltar.

De todo modo, a farsa nos rodeia.

E a mesma sede, Naíma, sem fim.

Só voltei a sonhar
depois que me livrei das caixas
com os livros:
havia um farol, um único facho,
varrendo a cordilheira.
Foi lá que imaginei o condor.
Um pássaro que abala a todos.
Ele, que congela e brilha.
Ele, que alça
e que bica meu sono
e que me acorda
com suas asas resvalando meus cílios.
Também ele não existe mais.

O homem caminhando na neblina?
Este sou eu.

26 de maio

Como um velho índio
que abandona a tribo
para morrer,
nosso gato já compreendera
que o fim estava perto.
Depois de dias desaparecido,
encontrei hoje o corpo
entre os víveres da despensa.

Mas ficaram todas as marcas
nos cantos do apartamento.
Um diminuto vale
entre as cobertas da nossa cama,
da poltrona, da almofada.
E uma silenciosa sombra
percorrendo todos os lugares
em busca do próprio cheiro.

Há uma quentura sobre meu colo.

E aquele olhar, Naíma,
de quem procura
eternamente por você

16 de abril

Você bem sabe, Naíma,
existem outros mundos além deste.
Mas é impossível alcançá-los daqui.

A passagem dos dias
me deixa cada vez mais atordoado.
Eles se misturaram de tal maneira
que já não consigo contá-los.
Quando a noite caiu, subi ao telhado:
não havia paz, apesar do silêncio.
Posso jurar que senti o pensamento
de cada ser da cidade escapando
para além dos limites da Terra.

Só um louco poderia olhar lá para baixo.
Uma multidão de habitações abandonadas;
tropas arrasadas tropeçavam nas sombras
e se desmanchavam ao menor sopro;
pequenos vulcões suspiravam
nas esquinas e nos becos. E nenhum alívio.

Muito acima, um gesto de misericórdia
desapareceu como um vulto
levando junto uma dança de estrelas.
Impossível contá-las, impossível alcançá-las.
Nuvens arrastavam nuvens
sem desenhar um gesto sequer. E nenhum alívio.

Logo o ar esqueceu de existir.
Fechei os olhos e esperei, Naíma,
que meu coração voltasse a bater